quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

METAMORFOSE
Para a minha alma eu queria uma torre como esta
assim alta,
assim de névoa acompanhando. o rio.
Estou. tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se reflectem na água.
E, contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a chuva estaria
se eu a soubesse ter...
na luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem,
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tomar-se humana.
Jorge de Sena

sábado, 10 de janeiro de 2009


APENAS PORTO
Podia dar-te o nome mais bonito,
O nome de Viela ou de Ribeira.
Dizer apenas corpo de granito
Com rosto de rabelo e de traineira
Podia dar-te o nome de navio,
Ou cais de nevoeiro junto á barra.
Podia dizer pontes céu e rio
Podia até chamar-te de guitarra.
Podias ser gaivota de ternura,
Ou cama com lençóis de neblina.
Podia dizer Sé ou Rua Escura
Ou asa de Muralha Fernandina.
Podia dar-te o nome do Infante,
De burgo caravela ou sardinheira.
Podia até chamar-te meu amante
Com cheiro a manjerico e a cidreira.
Mas digo apenas Porto
Meu chão e meu lugar,
Cidade que eu amo e em mim se arrasta.
Chamar-te Porto antigo
Telhado à beira mar,
Chamar-te Porto amigo já me basta

Fernando Campos de Castro
Sempre que regresso ao meu Porto (ao porto dos meus vinte anos) é com saudade que parto mas com tristeza que volto.
Vou à procura dos espaços harmoniosos, dos jardins arrumados e frondosos, da música nos coretos a animar as tardes dos reformados e das crianças que se divertem a ver as marionetas mal amanhadas mas coloridas, que entre pauladas e correrias vão contando as histórias "de pasmar" que fazem abrir de espanto as bocas e arregalam os olhos, dos
carros eléctricos amarelos e do seu "tim-tim", anunciando a sua chegada, dos palacetes bem arranjados do "brasileiros" nas avenidas, dos portuenses enchendo as ruas e as lojas... até da polícia em cada esquina,gingando com ar autoritário, mas vigiando e impondo respeito...
Hoje, não encontro árvores frondosas, eléctricos amarelos, polícias, marionetas, música nos coretos, crianças a brincar, lojas cheias, ruas fervilhando de portuenses ou "estrangeiros".
Vejo um Porto descaracterizado, velho, agonizante, mal lavado, cheirando a lixo acumulado nas esquinas, portas fechadas com tábuas mal pregadas, paredes pixadas, ás vezes um polícia que tenta disfarçar a sua autoridade... um Porto só.
Mas mesmo assim, moribundo, ainda é belo e altaneiro, é uma árvore a morrer de pé, que não se verga aos que a esqueceram e que ainda abriga, nas ruínas que sustenta, prostitutas, drogados e desamparados da sorte, igualmente sós na sua dor.
Ah, Porto! Podem-te abandonar e maltratar, mas nunca te esquecerão; uns com saudade, outros com a consciência pesada por nada terem feito para te agradecer.
Aceita este livro que foi feito a pensar em ti, com saudade mas com todo o respeito que me mereces, porque de ti vim e a ti pertenço.
Manuel Valle