sábado, 10 de janeiro de 2009

Sempre que regresso ao meu Porto (ao porto dos meus vinte anos) é com saudade que parto mas com tristeza que volto.
Vou à procura dos espaços harmoniosos, dos jardins arrumados e frondosos, da música nos coretos a animar as tardes dos reformados e das crianças que se divertem a ver as marionetas mal amanhadas mas coloridas, que entre pauladas e correrias vão contando as histórias "de pasmar" que fazem abrir de espanto as bocas e arregalam os olhos, dos
carros eléctricos amarelos e do seu "tim-tim", anunciando a sua chegada, dos palacetes bem arranjados do "brasileiros" nas avenidas, dos portuenses enchendo as ruas e as lojas... até da polícia em cada esquina,gingando com ar autoritário, mas vigiando e impondo respeito...
Hoje, não encontro árvores frondosas, eléctricos amarelos, polícias, marionetas, música nos coretos, crianças a brincar, lojas cheias, ruas fervilhando de portuenses ou "estrangeiros".
Vejo um Porto descaracterizado, velho, agonizante, mal lavado, cheirando a lixo acumulado nas esquinas, portas fechadas com tábuas mal pregadas, paredes pixadas, ás vezes um polícia que tenta disfarçar a sua autoridade... um Porto só.
Mas mesmo assim, moribundo, ainda é belo e altaneiro, é uma árvore a morrer de pé, que não se verga aos que a esqueceram e que ainda abriga, nas ruínas que sustenta, prostitutas, drogados e desamparados da sorte, igualmente sós na sua dor.
Ah, Porto! Podem-te abandonar e maltratar, mas nunca te esquecerão; uns com saudade, outros com a consciência pesada por nada terem feito para te agradecer.
Aceita este livro que foi feito a pensar em ti, com saudade mas com todo o respeito que me mereces, porque de ti vim e a ti pertenço.
Manuel Valle

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